terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

De ferir




E o esquema é ficar o dia todo vendo filmes
admirando silêncios e dedilhando canções sem ritmo 
sim, eu não tenho ritmo
nem sei dançar como ela sabe...

É um pouco de se perder
armada de unhas e dentes
ferindo partes delicadas.

No fim somos iguais.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Uma Severina entre tantas



Muitas Severinas nas portas de suas casas de barro
Lavram, lavam, criam sem saber o significado da palavra perspectiva
Ardem no céu claro com sua pele queimada nesse sol
que castiga
Filhos de barrigas grandes
pernas magras, pés descalços acostumados ao chão batido,
uma infância que parece boa até a segunda página
quando lhe falta no estomago
quando lhe falta nos braços uns cadernos e lápis
quando lhe falta no corpo a imagem da criança...
Severina não mastiga muito, faltam dentes
faltam alimentos,
e sua barriga vazia guarda abaixo no útero ocupado
um filho na metade
pequeno como todos quando estão ainda lá
mas diferente num ponto: falta-lhe o cérebro.
E Severina analfabeta sertaneja
já tem filhos para cuidar, para levar consigo até onde a vida puder chegar
espera decisões que não lhe cabe tomar sozinha
porque sua palavras não podem ser as que devem ser ouvidas e levadas a sério primeiro,
antes disso tem as leis, o Governo e a burocracia...
Severina mulher nova, rosto antigo, deseja interromper essa história, uma tragédia anunciada que ninguém quer saber como vai acabar
mesmo sabendo que sempre acaba com morte
começa com morte
Bebe natimorto.
E no caminho da maternidade Severina não vê saída
 está lá, umas mãos a ajudam
mas ela quer logo sair
voltar pra casa, sua realidade que é assaltada por um período curto/longo
de 8 meses
que sabe, não vai dar em nada.

Severina quadril expandindo
Severina doendo
Severina não pensando

E silêncio.
Severina sabe o que vem depois.

Silêncio.

Severina lembra do berço que não comprou
e que não precisaria
das roupinhas que não pode comprar
porque ninguém usaria

Partida, partida.
Pariu uma morte que não deseja ver
Pariu uma morte que sabia ser inevitável
Pariu o silêncio
e todos aplaudem
Todos aplaudem.

Severina no lugar de berço deu caixão
Severina no lugar dela não tem escolha senão seguir
não teve escolha senão parir
não tem escolha senão obedecer.






quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ir, voar...




Vou voando
uma garota voando
deve ser louca
deve ter muito
mas que nada,
nada além do que está,
voando é passarinha
beijando as flores
amando quem nunca se dispõem
e rompendo com eles, com elas. 
Abram as janelas
uma garota voando
liberta ainda que tarde
devolvendo os abraços
deixando um perfume
um brilho, um sonho de ser
e ser.


                                               
                           (Pras meninas que voam e pras que ainda vão voar!)

Foto Lomo da minha janela.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sobre ser




Ela estudava de manhã e saia correndo pro trabalho 13:00 hs, vendedora cursando ensino superior, talvez 23 mas podia ser mais, decidiu não ter filhos, pelo menos não antes de se estabilizar, decidiu não ter relacionamentos sérios porque achava que precisava de espaço, estava criando projetos, conhecendo pessoas legais, crescendo. Frequentava baladas de sábado, vida noturna vibrante pra relaxar, teatro, cinema, shows nos fins de semana quando tinha uma graninha extra, era como queria ser, vez ou outra alguém, sexo e um pouco de carinho. Numa noite como outras voltando sozinha pra casa cansada depois de mais um dia, um carro a segue pela calçada. Levam embora sonhos, destroçam ideais, espancam a coragem e matam, sem perceber, a garota que há em cada uma de nós. 

Guerreiras.

do dia 29/11/11

sábado, 24 de setembro de 2011

De sábado


Não havia plano algum pra sábado a noite, eu queria mesmo ficar em casa vendo filmes até o sono chegar.
Mas fui lá ver oque acontecia, nada novo, mesmas caras, mesmos sonâmbulos, medianos, medíocres cheirando a a noite, pessoas sem sabor na beira dos meus olhos míopes.
Quero ficar lá fora, respirar.
Quero ir pra casa.
Pessoas amargas fazendo papel de boas.
Deixa, é só sábado de noite, pessoas saem pra beber, esquecer, celebrar, dançar, encontrar alguém...
Deixa, é só sábado de noite, não vejo nada além de pinturas mal feitas de um pintor que gosta de fazer piada com tudo.
É só sábado a noite, que as portas se abram, que as pernas se ergam, que evacuem, que soltem, que percam a virgindade, a vergonha, a delicadeza, a inteligência, a arte, que percam tudo que poderiam por acaso ou não ter, que não implorem por beijos, que não peçam amor, que julguem pelo corpo, que sorriam mesmo sem um motivo aparente.
É sábado de noite, fodam-se entre si com mijos em jatos fortes, mergulhem suas cabeças de cabelos bonitos na merda sem perder a pose.
Todos fodem com tudo, fodam-se alegremente.
Porque é sábado de noite?


21.02.11

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Do começo do fim



Esta talvez seja a hora certa pra te dizer:

Você nunca foi nada além de uma visão.



(Foto: Jornada fotográfica no Parque do Carmo, cerejeiras com cel.)

sábado, 26 de março de 2011

Peso y ligereza


Me desarmo, desprendo, solto os punhos e os pés, era pra me sentir melhor quando fiz isso mas é estranho, continuo sentido a prisão como uma sombra que se arrasta ao meu lado, falta a certeza da não-queda e fico bambiando na corda, a sensação de estar livre me parece a mais aterradora de todas, liberdade é uma roupa que nunca é do tamanho certo.
Era pra estar feliz, era pra sorrir e cantar e amar as cores dos meus olhos no espelho mas só vejo sujeira, sangue coagulado, cicatrizes de quando eu achava que alguém ou alguma coisa poderia me salvar ou suprir, sim sou uma fodida na vida.
Fodam-se os melhores alunos, as populares, as sempre charmosas e bem maquiadas, fodam-se, não me interesso por perfeição, não sei ser outra coisa, estou morrendo e tenho uma coisa pra contar, vocês também estão.
 Deixem que eu sinta dor. Sempre com cadernos de páginas fechadas de textos escritos nos intervalos das aulas enquanto todos eram sociáveis e dispostos. Eu queria o silencio, a música, queria acreditar que o que eu era na verdade era belo. Saí do casulo, voei e fui ver com meus sentidos ligados no máximo como poderia ser longe da casa protetora que criei.
Eu sou o extremo, não sei disfarçar, não sei ficar 'apenas' triste, eu me jogo contra tudo sem me preocupar com a queda, leiam as entrelinhas. Eu entro em transe na fila do mercado, eu penso nos glóbulos brancos circulando nas minhas veias enquanto espero pela pipoca no cinema, eu me vejo cair da janela do meu quarto numa queda lenta (como nos filmes) enquanto paro nela desconectada. Tenho necessidade de sentir, é algo maior, vai além desses artifícios, como pra me atestar que ainda ando solta sobre a terra, ainda tenho um tempo que não sei o tamanho, não sei o quanto isso é bom, nunca quis estar aqui por mais tempo.
Às vezes posso sentir o vento no rosto, fecho os olhos, só eu me sinto assim perdida? Só eu desejo o mar ou a janela quase todo dia? Só eu vejo nas gôndolas do supermercado motivos pra nunca mais querer entrar ali? Só eu vejo pessoas evitando dor com medo de não serem perdoadas por um deus que só quis seu bem embora tenha te deixado passar por coisas surreais quando ainda aprendia a escrever?
Depois de algum tempo se aprende sobre companhia (a minha ainda é a melhor pra mim)...  
Escrevo porque essa é a forma de expressão primeira que encontrei, escrevo mal, sem sentido, escrevo lembrando, não me envergonho nem do vômito, nem do sangue que sai e vai se espalhando praguento, fétido, mórbido.

(de 04.02.11)